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 | |  |  | | Debate - Epidemias | |
| A luta dos homens contra as doenças é tão velha quanto sua história. | |
| 20.05.2006 | |
 | | Entrevistado Erna Geessien Kroon e João Carlos Pinto Dias Doutora em Virologia e doutor em Medicina Tropical e membro do Comitê de Doenças Parasitárias da Org UFMG e FIOCRUZ |
|  | Alguns agentes infecciosos bem conhecidos, como piolhos, vermes e sarna, encontram-se registrados em tabletes da Mesopotâmia, papiros egípcios e na própria bíblia. Os métodos de combate a essas enfermidades é que mudaram consideravelmente. Se, no início, usávamos magia e invocações aos espíritos, hoje contamos com tecnologia de ponta para prevenção, diagnóstico e tratamento de uma infinidade de males. A pesquisa científica também evoluiu muito e encontrou respostas que nos ajudaram a erradicar ou, na maioria das vezes, a controlar essas doenças, permitindo ao homem estender, cada vez mais, sua expectativa de vida.
Erna Kroon, da UFMG
Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, a humanidade ainda não chegou ao ponto de se ver livre ou prever o aparecimento de novas enfermidades. Um exemplo é o suspense mundial em torno da gripe aviária e do vírus H5N1, seu causador. Casos da doença já foram identificados em diversos países da Ásia e, mais recentemente, da Europa. O vírus continua restrito às aves – os casos diagnosticados em humanos são de pessoas que tiveram contato direto com animais contaminados. Apesar de ainda não existir transmissão entre humanos, especialistas acreditam que isso é inevitável. Nesse caso, o mundo deve se preparar para uma nova pandemia de influenza.
Estamos preparados para isso? Como evitar o aparecimento de novas doenças se a velocidade dos transportes, que permite a uma pessoa estar em partes diferentes do globo em poucos dias, a vida em sociedade, em que um número enorme de pessoas convive em espaços restritos, e a exploração de novos ambientes são fatores intimamente ligados à disseminação de agentes infecciosos? E por que ainda não conseguimos nos livrar de doenças que, apesar de conhecidas e estudadas há muito tempo, continuam provocando mortes?
Essas são algumas questões propostas neste debate. Os convidados são a professora do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Erna Geessien Kroon, doutora em Virologia, e o professor João Carlos Pinto Dias, do Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz), doutor em Medicina Tropical e membro do Comitê de Doenças Parasitárias da Organização Mundial de Saúde.
A descoberta dos antibióticos trouxe a sensação de que as doenças contagiosas seriam logo controladas. Isso não se confirmou. Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, novas doenças continuam surgindo. Por que isso acontece? Haverá um dia em que conseguiremos prever o aparecimento dessas enfermidades?
Erna – Os antibióticos, que surgem após a Segunda Guerra Mundial, de fato conseguiram erradicar muitas doenças infecciosas. Houve, ainda, um segundo acontecimento que levou o homem a pensar que poderia controlar essas enfermidades: a vitória sobre a varíola. A doença foi erradicada a partir da produção de vacinas eficientes. Naquela época, se dava muito pouca importância à virologia porque se achava que todas as viroses trilhariam o mesmo caminho e seriam resolvidas da mesma forma: para cada nova doença, seria feita uma vacina que a controlaria. E esse foi o caminho seguido nos primeiros dez anos após a descoberta do HIV. Ao fim desse tempo, verificou-se que não era assim tão simples e que nosso conhecimento era muito pequeno. Outras teorias apareceram e comprovaram que, de fato, o homem não estava no controle. Exemplo, agora, é o caso do H5N1, vírus causador da gripe aviária. Acumulamos muitos conhecimentos, mas não a ponto de sermos tão eficientes na previsão de novas doenças.
João Carlos – Ao longo da história da humanidade e, em particular, da história da saúde, temos tido momentos de euforia, com o controle de algumas doenças. Mas a questão principal diz respeito ao modelo. Nosso modelo é centrado na especialidade. Erradicamos algumas enfermidades, como o sarampo e a rubéola, através de ferramentas que são efetivas, mas também muito restritas a seu âmbito de atuação. O modelo não pode ser centrado no hospital ou na tecnologia porque a grande maioria das doenças está ligada a fatores que extra-polam isso. A África, por exemplo, teve muitos problemas com o cólera e várias viroses porque, apesar das ferramentas médicas, as questões envolvendo a qualidade de vida da população não foram resolvidas. No caso do cólera, vacina é o de menos. Essa doença está relacionada ao saneamento básico e à rapidez no atendimento em saúde. Quando ela aparece, significa falta de saneamento e, quando mata, um sistema de saúde ruim. O Brasil é prova disso. Tivemos um surto epidêmico de cólera nos anos 1990 e houve uma dispersão grande da doença mostrando a precariedade do sistema de saneamento básico e a vulnerabilidade da população. Mas morreram poucos, quer dizer, menos de um por cento dos infectados. Como falou a professora, temos avançado muito em conhecimento, porém, nossos modelos não são suficientes porque se restringem a ferramentas individuais. No caso de epidemias, temos que considerar questões de acesso, disponibilidade, preço, mercado e até mesmo questões que independem de nós, como a mutação dos agentes infecciosos.
É verdade que boa parte dos vírus e bactérias causadores dessas epidemias têm origem nos animais, como no caso da aids, que é causada por um vírus mutante do chimpanzé?
Erna – Bom, existe uma série de indicações, mas isso não é regra. A teoria é forte; nos Estados Unidos, por exemplo, foi detectado um caso de varíola em macaco. Mas há diversos outros fatores envolvidos. As cidades cresceram muito. Na época do carnaval ou no verão, cidades litorâneas que têm uma população de dez mil habitantes recebem um número dez vezes maior de turistas. Não há saneamento básico que agüente. Além disso, o turismo ecológico e mesmo a pesquisa científica, às vezes, são feitos sem a fundamentação microbiológica que deveriam ter. As pessoas trabalham com animais nas selvas sem proteção, sem máscaras ou luvas. Com isso, o indivíduo busca o microorganismo em um ambiente silvestre e o leva para o urbano. Sem falar que ele também deixa seus microorganismos na mata. E não há como prever a dispersão disso em uma cidade de três milhões de habitantes como Belo Horizonte.
A exploração de novos ambientes está ligada ao surgimento de novas epidemias?
Erna – Exploração de novos ambientes, desmatamentos, elevação da temperatura... Tudo isso vai ter impacto no comportamento dos vetores. Alguns se comportam de forma diferente em temperaturas elevadas, se multiplicando com mais rapidez, por exemplo. Como a dengue. Em determinadas temperaturas, a transmissão dessa doença é mais eficiente. E algo que dificulta a prevenção é que nós pesquisamos enquanto as coisas já estão acontecendo. A elevação de temperatura causada pelo aquecimento global é fato e nós ainda estamos supondo que deva ter influên-cia no comportamento desse ou daquele vetor.
João Carlos – Olhando nossa história, é possível associar a origem de microorganismo a animais ou à natureza em geral. O exemplo mais marcante talvez seja a peste, relacionada ao rato, que dizimou metade da população européia durante a Idade Média. E entram nesse circuito complexidades crescentes, como o avanço da ocupação humana, a questão da poluição e a aglomeração de pessoas. A peste não foi embora. O Brasil é que tem um programa de controle eficiente, apesar de as ações antrópicas, relativas à ação do homem sobre a natureza, dificultarem as ações. Doenças exóticas ou restritas a uma determinada região começam a aparecer do outro lado do globo devido a viagens internacionais, exploração de novos ambientes, entre outros. Vale lembrar que o que é doença para o homem não é necessariamente para os animais. O macaco, por exemplo, convive com a malária. A doença de Chagas não tem nenhuma influência sobre seu principal reservatório animal, o gambá. No caso da gripe aviária, o vírus está caminhando para chegar ao homem. Ele já provocou algumas mortes e o risco de uma epidemia é grande porque, como existem poucas pessoas infectadas, ainda não temos imunidade natural contra a doença.
Sobre a gripe aviária, qual a chance da doença se tornar uma pandemia e se espalhar pelo mundo?
Erna – Primeiro, é preciso considerar duas coisas. Hoje, temos uma rede mundial ativa e todas as informações correm rápido. Por isso, ficamos saben-do de casos que, até pouco tempo, não chegariam até nós. Se, por um lado, isso é bom, por outro, pode gerar uma espécie de pânico antecipado. Há alguns meses, se uma ave morria, ela seria enterrada e pronto. Hoje, se isso acontece, a população imediatamente entra em alerta. Para mim, o que agrava o proble-ma da gripe aviária é que temos enormes criações de aves em todo o mundo, sem contar as criações de fundo de quintal. Eu vejo a influenza (gripe) como uma doença naturalmente pandêmica. A Organização Mundial de Saúde (OMS) está atenta porque, considerando a história da humanidade, podemos esperar uma nova pandemia de influenza. Mas não significa que será essa. Quer dizer, nós estamos dando toda a atenção para o H5N1, mas pode ocorrer uma mutação e, esse sim, ser o vírus que atingirá os humanos. Informações científicas de que o vírus havia passado de aves para humanos preocupam, mas o controle é muito difícil porque a doença é transmitida pela via aérea, os transportes são muito rápidos – hoje você está no Japão, amanhã, na Argentina, depois de amanhã, na Austrália – e as criações de aves estão cada vez maiores. Mas não sei se os conhecimentos disponíveis hoje sobre a doença são suficientes para avaliar o risco de ela chegar ao Brasil. Na minha opinião, ainda sabemos muito pouco. É claro que o Brasil precisa se preparar, a vigilância tem que estar funcionando e o sistema de saúde, a postos. Mas a verdade é temos realidades mais graves.
João Carlos – Quando esse vírus sofrer mutação, podemos esperar uma dispersão relativamente rápida. Mas, por enquanto, o problema está restrito às aves. Assim, uma das preocupações deve ser impedir a doença de chegar aos cria-tórios. Se isso acontecer, será difícil contê-la, já que o confinamento de milha-res de aves no mesmo local facilitaria a disseminação. Essa previsão já está afetando o mercado. Hoje, a carne de aves é a proteína mais barata que existe, sendo consumida em quase todo o planeta. E, por ser barata, expõe as populações mais carentes. A doença é grave, com cerca de 50% de mortalidade. E, uma vez que se instala, só resta o tratamento de suporte, que depende de um bom sistema de saúde. Mas tudo é uma questão de prioridades. O caminho que deve ser percorrido para acompanhar e prevenir a doença custa muito dinheiro. Saltar da bancada do laboratório para as prateleiras não é fácil, apesar de ser mais rápido quando afeta, como agora, países de primeiro mundo. E essa doença aviária interessa para eles porque existem riscos de sua população ser atingida e riscos econômicos. Já a doença de Chagas não tem nenhum interesse para esses países: não existe em seu território e não tem mercado. Por isso, o Brasil tem um grande desafio pela frente. Temos capacidade científica, mas precisamos pular para a segunda parte, que é a transferência ou a disponibilização da tecnologia para nossa população. No caso dessa doença, existem vários desafios, como prevenção e tratamento, que envolvem desenvolvimento tecnológico, acesso e diagnóstico eficiente. Mas ela ainda está muito longe de nós. As crianças estão morrendo de diarréia no Nordeste do Brasil. Em Minas Gerais mesmo, no Vale do Jequitinhonha. Às vezes, é preciso olhar primeiro para nossa realidade.
Erna – Tem algo que considero muito importante. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), durante muitos anos, fez um investimento enorme para criar capacitação científica e tecnológica. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também, assim como a FAPEMIG, em um passado mais recente. Então, nós temos, hoje, um quadro de doutores muito amplo, mas que, nem sempre, é aproveitado no sistema de saúde. E existem problemas locais que, por uma questão de cidadania, precisam ser resolvidos imediatamente. Porque, a partir do momento que resolvemos nossos problemas, nossas endemias, fica mais fácil lidar com aquilo que vem de fora. Se você tem uma população debilitada, já com outras doenças, o impacto de uma pandemia de gripe é maior. Por uma questão de segurança nacional, é necessário o investimento em ciência e tecnologia e na transferência disso para a população. Temos que fazer nossas instituições trabalharem para resolver nossos problemas. Com isso, estaremos nos fortalecendo. Uma criança bem nutrida, sem um quadro de diarréia, é mais resistente. A influenza, assim como a maioria das viroses, tem tudo a ver com carência alimentar. Isso explica porque as pandemias se seguiram às grandes guerras, como a pandemia de gripe espanhola. A população, doente e com fome, estava mais susceptível.
Na sua opinião, o Brasil está se preparando da forma adequada para enfrentar essa doença?
Erna – Eu não conheço exatamente o programa de prevenção do Brasil. Sei que há uma preocupação do Ministério da Saúde e acho que ela é justa. A minha opinião é que deve haver um investimento na descentralização. Porque acho que existe uma centrali-zação muito grande dos laboratórios, principalmente na área da virologia. Assim, no caso de epidemias, eles não conseguem atender à demanda. Não sei como o Ministério vê isso, mas não estou percebendo nenhum movimento grande nesse sentido. E acho que, frente a uma pandemia, um dos pontos essenciais seria a descentralização da parte laboratorial.
João Carlos – Nós temos um sistema de saúde que depende do Estado. Isso é diferente em países do primeiro mundo. Lá existem, também, estruturas altamente eficientes em desenvolvimento de vigilância, como o Center for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos. Mas, do ponto de vista prático, há cerca de seis meses, o Brasil participou de um workshop sobre essa doença em que a OMS apresentou os dados disponíveis até o momento. Foi elaborado um plano de ação, uma agenda sustentada até hoje, e o Brasil entrou com alguns pontos. Foram nomeadas algumas instituições brasileiras para receber recursos e desenvolver tecnologias. Será uma vigilância pró-ativa, pois o agravo não chegou ainda no País. Mas acho o sistema descentralizado um elemento crucial. Os laboratórios regionais devem se relacionar, ter capacitação e competência dentro dos estados a fim de montar uma rede epidemiológica eficiente. Isso facilita a circulação de informações e as ações de prevenção e tratamento.
Ao mesmo tempo em que surgem novas doenças, convivemos com outras que não conseguimos erradicar. É o caso da malária, da doença de Chagas... Por que não conseguimos eliminar essas doenças se sabemos tanto sobre elas?
João Carlos – Há dois tipos de problema. Primeiro, existem ainda situa-ções epidemiológicas ou, vamos dizer, bioecológicas sem resposta. Temos perguntas a serem respondidas e pesquisas que têm esse objetivo. Outro, que é mais usual no caso das doenças mencionadas, são questões relativas ao acesso, à disponibilidade de insumos, à vontade política para aplicar esses insumos e, uma palavra-chave, à continuidade. Muitos programas não têm continuidade. Além disso, o grau de cobertura deles não é universal. E um pressuposto do sistema de saúde é a universalidade, uma cobertura suficiente. O sarampo demorou a acabar, por exemplo, porque a cobertura não chegava a todas as regiões. No caso das duas doenças citadas, existem novidades. A ocorrência da doença de Chagas na Amazônia é uma situação nova. No local, a doença possui uma quantidade enorme de reservatórios naturais. A maioria dos casos registrados na região foi transmitida por via oral. O inseto vem atraído pela luz, cai na comida e as pessoas ingerem.
Como naquele caso do caldo de cana...
João Carlos – Essa também é uma situação inusitada, o inseto caiu na moenda e foi triturado junto com a cana. Já no caso da malária, os grandes proble-mas não são de resistência do plasmódio aos remédios ou de resistência do mosquito aos inseticidas. Eles existem, mas não são os principais. O grande problema é a mobilidade da população e a falta de continuidade, o despreparo das equipes e a ineficiência do sistema de saúde. Um bom exemplo disso é não ter havido malária na maior concentração humana que já houve na Amazônia, a Serra Pelada. Simplesmente porque lá era tudo controlado. Qualquer pessoa que chegasse com febre era mandada imedia-tamente para a enfermaria. Já nos garimpos da Amazônia, são muitos os casos. Eu trabalho mais com doença de Chagas. Ela vai sempre existir porque é uma enzootia silvestre, ou seja, é originária dos bichos e dos vetores relacionados a eles em ambientes fechados e ecologicamente bem definidos. O problema acontece quando o homem entra nesse espaço. Em fevereiro de 2005, tivemos um surto de doença de Chagas em Santa Catarina. Eles aconteceram porque, naquele ponto-de-venda de cana, no km 111 a partir de Navegantes até a BR 101, onde aconteceram todos os 26 casos, aquele único ponto estava a 60 metros de uma nesga de Mata Atlântica onde existem barbeiros silvestres. Eles nunca tinham criado problema, mas foram atraídos pelas luzes do ponto-de-venda. Os últimos casos agudos de São Paulo estão acontecendo na Serra do Mar, devido ao turismo ecológico. As pessoas passam uma semana na mata e, daí a dez dias, estão com febre. No médico, descobrem que estão com leishmaniose, malária ou doença de Chagas. A doença de Chagas nunca vai acabar porque ela existe em animais silvestres. Mas, como epidemia, como endemia, ela está absolutamente derrotada. A malária não.
João Carlos Pinto Dias, do René Rachou
Erna – Eu concordo, acho que esse tipo de Chagas já está derrotado, são coisas pontuais. O que pesa é a biodiversidade. Essa é a questão do Amazonas, muitas espécies ainda estão para ser descobertas. São novos desafios.
João Carlos – E sobre a dengue?
Erna – A dengue é conseqüência de falta de vigilância. Nos anos 60, o Aedes aegypti, mosquito que transmite a doença, estava restrito à América Central, não existia na América do Sul. No passado, ele existia aqui, tanto que ele também é o vetor da febre amarela. Quando se objetivou acabar com a doença pela eliminação do vetor, automaticamente a dengue sumiu. A partir daí, não só no Brasil, mas mundialmente, houve um relaxamento em relação ao controle dos vetores. No começo da década de 1980, começam a surgir casos de dengue no Brasil, mas casos isolados. E, nos próximos dez anos, não houve, de fato, uma preocupação com isso. No currículo da universidade não tinha dengue, essa doença não era considerada no País. A meu ver, o que houve foi uma falta de vigilância porque, se os primeiros casos tivessem sido cercados, talvez a doença pudesse ser controlada. Hoje, a dengue é praticamente endêmica no País. E, como não foi estudada, sabemos muito pouco sobre ela. Na última década, tivemos muitos trabalhos e informações científicas, mas nenhum fato novo para resolver o problema. Algumas prefeituras, como a de Belo Horizonte, fazem um trabalho muito bom, mas outras não. Ora, mosquito não conhece limite geográfico. E, com isso, você prejudica todo o sistema. Para mim, dengue é uma bomba-relógio. Ela já explodiu em 1998, quando documentamos, em BH, 100 mil casos. Estima-se que, em quatro ou cinco meses, 500 mil pessoas tenham sido infectadas. Depois, tivemos pequenas epidemias, casos anuais, mas não uma situação de febre hemorrágica que, por sinal, é difícil de prever. Não conhecemos todos os fatores que levariam a um surto de febre hemorrágica. E, se ele acontecer, pode significar uma tragédia. Então, dengue é uma doença que fugiu ao controle. Há investimento, mas ele não é compatível com o tamanho do problema. O controle do vetor também é difícil. Hoje, nem programas muito bem estruturados dão conta porque cada tampinha de refrige-rante é um criatório. Nós temos que fazer um trabalho enorme de conscientização da população e isso só funciona com educação. Esse é um ponto importante: não podemos dissociar saúde da educação. As duas coisas caminham juntas.
João Carlos – Educar não é só informar. Informação até existe, as pessoas sabem identificar o Aedes. Mas aquela informação que gera uma mudança de comportamento, um comportamento cidadão, isso já é outro assunto. As discussões na área de saúde pública têm mostrado que a grande vulnerabilidade do processo está no comportamento do cidadão. Tanto dos gestores, no sentido de viabilizar e aplicar verbas, como da dona de casa e da criança, que guardam aquela tampinha de refrigerante. Muito mais que brigas sobre bacilos, inseticidas químicos, resistência. Isso mostra que a questão extrapola o desenvolvimento técnico-científico. Assim como no caso de explodir uma epidemia de febre hemorrágica: o problema passa a ser da competência e da capacidade do sistema de saúde em manter as pessoas vivas. Isso envolve estrutura, conhecimento, preparo e um mínimo de competência instalada. Para completar, se estamos sob o risco de uma epidemia de dengue, significa que o vetor está presente, o mesmo vetor da febre amarela. E essa doença está por aí, sua mortalidade é de 50%. Para ela, temos diagnóstico, mas faltam trabalhos em tratamento e manejo, nesse ponto estamos no mesmo patamar há muito tempo.
Existe um termo para se referir a essas doenças típicas de países subdesenvolvidos: doenças negligenciadas. Negligenciadas porque não existe um interesse real das indústrias farmacêuticas de investir em tratamentos ou soluções. Como vocês vêem essa questão?
Erna – Como em todas as atividades hoje, quando entra o fator econômico, o interesse está diretamente relacionado à venda. As empresas investem muito na pesquisa e, evidentemente, aguardam um retorno na forma de royalties. E, quando não há uma previsão de compra, de ganhos, investir todo esse dinheiro significaria prejuízo. É aquela coisa, não vou fazer algo que não vai vender. Aí entra o papel dos governos de intermediadores porque, apesar de não haver previsão de lucros, as pesquisas precisam ser feitas. Para investir naquilo que o setor privado relega a segundo plano, temos as agências financiadoras de pesquisa, o Ministério da Saúde. Esse é um papel que o governo brasileiro tem tentado assumir, há vários exemplos bons, mas que devem ser ampliados para alcançar mais resultados. A quebra de patentes, como já foi discutido em situações recentes, é um ponto perigoso. É importante que as indústrias tenham os seus ganhos porque, senão, o desenvolvimento científico e tecnológico vai perder essa contribuição. Se os medicamentos pararem de dar dinheiro, os investidores vão investir em telecomunicações e, como conseqüência, vão ter fim os estudos para cura da aids, por exemplo. Vivemos em uma sociedade cada vez mais internacional, não há como nos isolarmos. Temos competência científica, falta vontade política para investir em educação, saúde, acesso. Tem que haver um investimento, mas, em alguns casos, esse investimento terá que ser feito pelo governo porque não há atratividade.
João Carlos – Existe uma publicação recente da Organização Pan-Americana de Saúde, Opas, que coloca uma boa questão: existem doenças negligenciadas ou populações negligenciadas? Essa é aquela população que não consegue solucionar seus problemas imediatos, uma população desempregada, analfabeta, sem peso político. Daqui a pouco, vamos falar em regiões negligenciadas, em momentos de negli-gência e até mesmo em países negligenciados.
Erna – Alguns países da África se encaixariam aí.
João Carlos – Sim. O Estado tem que ser provedor e redistribuidor naqueles países em desenvolvimento. Não estamos no mesmo patamar financeiro, econômico e de poder que países europeus ou da América do Norte. Então, no Brasil, o Estado tem que assumir vários papéis. No exemplo das indústrias, em que a lógica é o lucro, o Estado deve ser moderador e buscar alternativas. Ele precisa ser provedor na questão das vacinas, do coquetel contra o HIV e de urgências como educação, emprego, seguridade social, entre outras coisas básicas. O Estado tem que ser também articulador, trabalhando as relações internacionais. A parceria com órgãos como o CDC resulta em treinamentos, pesquisas em conjunto, novos tratamentos. E existem as prioridades. Do ponto de vista do orçamento, a comunidade política tem que ser mais conseqüente. A epidemia de dengue de 98, aqui, foi causada pela falta de preparo e de insumos disponíveis. Havia verba, mas ela não foi usada direito. A questão da negligência, no Brasil, tem muito a ver com as formulações das grandes políticas e sua aplicação.
Alguns filmes de ficção científica mostram um futuro livre de doenças e pragas. Em sua opinião, isso é mesmo ficção ou, um dia, pode se tornar realidade?
Erna – Eu acho que é ficção. Pelo menos pelas próximas dez gerações, porque nossa biodiversidade é muito grande. E o homem interfere no meio ambiente. Pegando a microbiologia, existem microorganismos que, hoje, convivem conosco em um estado de equilíbrio. Amanhã, pode ser que não. Acho que, em um futuro não tão longínquo, cada um de nós vai ter um chip com todo o nosso código genético gravado. Então, quando entrarmos no hospital, aquilo já será decodificado e dirá, por exemplo, a dosagem adequada de medicação. E, talvez, seja possível identificar a que doenças somos mais susceptíveis. No caso de novas doenças, temos que considerar aquilo que eu arriscaria chamar de ecologia viral. Sabemos sobre ecologia microbiana, quais microorganismos constituem a flora do intestino, do estômago... Mas, em relação a vírus, isso é absolutamente desconhecido. O vírus é visto sempre como um agente agressor, causador de doenças. Mas eles convivem com os animais, que são seus reservatórios. Quantos reservatórios existirão para dengue? Existem reservatórios para dengue? Em Belo Horizonte, um reservatório pode ser x. Em Ipatinga, que possui outra temperatura, o reservatório pode ser y. Os últimos cinqüenta anos nos mostraram que, apesar dos extraordinários avanços, ficamos livres de muito pouca coisa. Na verdade, a varíola, a pólio, não existem mais na América. Mas, na África, as doenças bacterianas ainda não foram controladas, existem inúmeros casos de resistência. Por isso, essa previsão é muito difícil.
João Carlos – Bem sugestiva e provocativa a pergunta. Desde a dinastia Ming, desde os egípcios, o homem está procurando a imortalidade. Realmente, nos dois últimos séculos, houve avanços extraordinários na compreensão da vida. Mas longe de qualquer pessoa responsável achar que está tudo terminado. Como fala o Domenico de Masi, o homem de hoje tem mais facilidade em sobreviver do que o de antes. Explora espaços absolutamente inesperados, com certeza, vai chegar a Marte e aos abismos abissais. Mas ele vai morrer das doenças crônico-degenerativas. Mesmo que a gente descubra todas as células mães do mundo, não vamos conseguir impedir o processo. Tenho um colega na faculdade que diz que, clinicamente, todos nós somos casos perdidos. A diferença é a qualidade de vida e o tempo de sobrevida que, às vezes, nem vale a pena. Sobre as doenças que conversamos hoje, as infecciosas, parasi-tárias, viróticas, a comunidade científica cunhou alguns termos para identificá-las. Temos as doenças erradicadas. Com esforço, é possível citar duas, porque essa palavra é muito radical. Temos as doenças elimináveis, como a pólio. Ela foi eliminada nas Américas, em um âmbito geográfico, mas não sumiu e pode voltar. E temos as controláveis, que são a maioria. Elas são controladas por meio das ferramentas disponíveis e estão sujeitas à disponibilidade, acesso, universalidade e à questão comercial. Só que essas doenças estão também passando por transformações e a ciência tem mostrado isso. Modificações dos patógenos, das vias de transmissão, dos vetores e, mais recente, modificações bioecológicas dos povos susceptíveis. É comum, hoje, uma pessoa de oitenta anos ter doença de Chagas. Quando comecei a trabalhar na área, essa era uma doença de pessoas de meia idade. E existem fatores ambientais, como um buraco de ozônio maior, uma quantidade maior de irradiação nuclear... Com certeza, novas doenças aparecerão. Assim, não sei se o cenário futurístico é mais positivo ou negativo. | |
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Comentários Adicionados pelos Usuários | Rayana de Rio de Janeira Em 24/04/07 17:47 comentou:
"Eu aprendi bastante coisa e adorei as informações" julio de bh juventudealegria@yahoo.com.br Em 24/05/07 09:44 comentou:
"eu odiei a entrevista ela e muito grande entao e ruim pra ler ate parece um livro de 55000 mil paginas" julio k,k.lçl Em 24/05/07 09:49 comentou:
"klçll,," julio k,k.lçl Em 24/05/07 09:49 comentou:
"klçll,," Thiago de Goiânia gusttavo18_@hotmail.com Em 26/04/10 14:18 comentou:
"Gostei, muito da entrevista, por se tratar de tantas informações importantes e que foram bem colocadas!" | |
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