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'A POLÍTICA DE BUSH NA ÁFRICA PARA O CONTROLE DA AIDS CAUSOU MAIS PREJUÍZOS QUE BENEFÍCIOS', DIZ PEDRO CHEQUER
Os programas de abstinência do país são "uma perversão da ciência com objetivos morais".
18.02.2008
Entrevistado
Pedro Chequer
Epidemiologista e representante do Brasil no Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids
Unaids
Matéria Reproduzida na Agência de Notícias da Aids


O epidemiologista e representante do Brasil no Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids, a Unaids, criticou os programas dos EUA de luta contra a Aids na África. Pedro Chequer disse, em entrevista ao Globo Online que os programas de abstinência do país são "uma perversão da ciência com objetivos morais". Chequer, especialista em Saúde Pública e mestre em epidemiologia pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, que dirigiu o Programa Nacional de DST e Aids, antes de se tornar representante do Unaids. Confira a entrevista.

Qual a posição do Brasil em relação à política de George W. Bush para o controle da Aids?

CHEQUER: O Brasil rejeita a ênfase do governo Bush na abstinência, na fidelidade e no uso controlado de preservativos. É uma perversão da ciência com objetivos morais. No fundo, essa é uma proposta teológica: não faça sexo, sexo só com casamento, com fidelidade, para procriação. Obviamente, a abstinência é a forma mais segura de evitar a Aids. Mas não é viável no sentido operacional, a menos que a proposta seja de castrar ou alterar geneticamente a humanidade.

Por discordar desta política, em abril de 2005 o Brasil recusou U$ 40 milhes da Agência do Governo dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) para financiamento de projetos de ONG. Como condição para a liberação da verba, a agência americana proibia o Programa Nacional de DST e Aids de repassar recursos a qualquer instituição que trabalhasse com prostitutas. Sé que dentro do programa de Aids brasileiro, as profissionais do sexo são vistas como parte do processo e não como pessoas que devem estar afastadas de qualquer decisão. Então, optamos pelo respeito diversidade, cidadania e ao direito de escolha das pessoas. E, sinceramente, valeu a pena. Ficamos sem o dinheiro, mas não perdemos a dignidade. Mas tem países que infelizmente se curvam diante disso e a as conseqüências são desastrosas.

Qual foi o destaque desta política na África?

CHEQUER: O carro-chefe do governo Bush, pelo menos do ponto de vista internacional, foi o Plano de Emergência do Presidente para Combate Aids. Uma iniciativa interessante, em primeiro lugar, pelo volume de recursos envolvidos. A previsão inicial era de US$ 15 bilhões por cinco anos, mas recentemente houve uma revisão orçamentária, votada pelo Congresso, e parece que o valor pode chegar a US$ 30 bilhões. O investimento deste recurso na área de assistência foi muito positivo, muito bem-vindo, e se somou a outras iniciativas que fizeram com que a cobertura do acesso a terapia anti-retroviral aumentasse em todos os países que fazem parte do programa, como Moçambique, Angola e Uganda. Agora, do ponto de vista da prevenção, o programa foi um fracasso absoluto. Os países que receberam financiamento dos EUA foram obrigados a destinar um percentual importante dos recursos, algo em torno de 30%, para áreas voltadas exclusivamente para abstinência e fidelidade. Desta forma, apesar do saldo positivo no que diz respeito a introdução da terapia anti-retroviral, que acarretou um aumento considerável na sobrevida dos pacientes, ampliando o acesso ao diagnóstico da infecção pelo HIV, o que reduz o tempo de espera para o resultado e agiliza o início do tratamento, acredito que a política de Bush para o controle da Aids na África tenha causado muito mais prejuízos que beneficios.

Bush considera o programa de controle da Aids na África um dos carros-chefes da sua política externa. Você concorda?

CHEQUER: Diante de tanto desastre de política externa, que vai do Afeganistão ao Iraque, eu diria que essa incitativa tem, pelo menos, um lado que resultou em algo positivo, que é a provisão do anti-retoviral e o diagnóstico de pacientes. O restante é um fracasso hediondo e terrível, que tem trazido preocupação na comunidade científica. Em 2004, participei em El Salvador de um encontro e vi grupos de jovens pregando contra o preservativo. Onde tem dinheiro americano voltado para a prevenção da Aids, tem essa influência da doutrina do Plano de Emergência do Presidente para o Combate à Aids. É um problema sério, que precisa definitivamente ser revertido.

Qual a extensão dos danos provocados pelo programa americano?

CHEQUER: Não dá para quantificar a extensão dos danos. Mas diria que os avanços que alcançamos em termos de prevenção poderiam ter sido muito mais agressivos se não fosse essa intervenção equivocada do Plano de Emergência do Presidente para Combate Aids. Se todo recurso que foi usado para abstinência e fidelidade e para satanizar os preservativos fosse usado efetivamente para construir um processo de educação sexual e sexualidade sadia, com a promoção do preservativo na prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), da gravidez indesejada e infecção pelo HIV, seguramente teremos resultados muito mais expressivos.

Para mim, o pior problema desta política é quanto à confusão que se cria do ponto de vista da mensagem educativa. Ao promover a abstinência e a fidelidade, cria e estimula os conceitos de pecado, de erro, de culpa em relação à sexualidade. O que é um aspecto realmente danoso. O preservativo é banido como algo pecaminoso, feio, e isso cria outra grande dificuldade. Por que quando o adolescente começa a praticar sexo, não tem entendimento da prática sexual protegida. Ou seja, uma proposta que cria uma tremenda confusão na população. É um desserviço.

É possível para rever ter esse quadro?

CHEQUER: Sempre dá tempo de discutir a sexualidade e a prevenção do HIV. Se a política muda, ainda temos crianças, jovens e adolescentes que podem ser reeducados ou educados sob uma nova perspectiva. A ampliação e fortalecimento das atividades de promoção da saúde e da educação sexual nas escolas, incorporando crianças e pré-adolescentes, é o grande desafio, com vistas à preparação de novas gerações para o enfrentamento da epidemia pelo HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. O acesso gratuito ao preservativo para a população sexualmente ativa, notadamente aquelas mais vulneráveis e que vivem em situação econômica adversa, também deveria ser ampliado e fortalecido.

O que muda na política americana para o controle da Aids com o fim da Era Bush?

CHEQUER: Ganhe Obama ou Hillary, a política vai mudar por completo. Já há sinais de mudança. Pouco a pouco, estão arrefecendo aquela idéia doentia de transformar ciência em teologia. Se vencesse o John McCain, eu tenho minhas dúvidas de como a situação seria conduzida, mas, ainda assim, a perspectiva já seria mais positiva do que agora. Ele é o menos conservador dos republicanos.

Globo Online

Fonte: Agência de Notícias da Aids
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Comentários Adicionados pelos Usuários
Neiva Pavlak de Buenos Aires
Em 15/04/08 11:45 comentou:
"O entrevistado está completamente equivocado nas suas opiniões! Ele considera a pessoa humana como um animal, guiado por um determinismo biológico, incapaz de orientar e dominar seus impulsos. De partida considera os jovens como seres infra-humanos, seres dominados pelos impulsos, pelos hormônios. Para ele só conta a biologia! Ora, o ser humano é muito mais que biologia!"
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