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GAPA-RP / 11.Dec.05
O mundinho fashion Daspu
Fonte: Folha de São Paulo
 
Retalhos de malha colorida comprados a R$ 27 o quilo são a matéria-prima. Na salinha de reuniões da ONG Davida, que defende os direitos das prostitutas, duas máquinas de costura produzem saias, tops, vestidos e camisetas. Em volta da mesa, quatro garotas de programa aproveitam o horário de folga para palpitar sobre os modelitos, experimentar as peças e rabiscar novos croquis com canetas BIC. Está nascendo uma nova grife no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Está nascendo a Daspu.




A novidade, anunciada há duas semanas, despertou ira nos escritórios da Daslu, "inspiradora" da nova marca. A loja vai processar a Davida por considerar o trocadilho "um deboche que visou "denegrir" a imagem da Daslu usufruindo do renome". A ONG já foi notificada.



"É muito melhor ser puta do que desonesto e fazer trambiques", provoca o designer da logomarca, o voluntário Silvio de Oliveira, em referência às denúncias de sonegação e contrabando sofridas pela grife de luxo. "Pode ser até que a gente mude o nome para que os rolos da Daslu não prejudiquem a nossa imagem", diz Flávio Lenz, assessor de imprensa da Daspu e casado com a ex-prostituta Gabriela Leite, secretária-executiva da ONG. Algum nome na agulha? "Putique", diz Flávio.



A briga, por enquanto, tem sido boa para a ONG: a Daspu despertou curiosidade. "Tenho atendido muitos jornalistas e estive a ponto de convocar uma coletiva na semana passada", diz Flávio. "Pesquisei no Google, já tem 600 e poucas citações pra gente, quer ver?" Gabriela corre até o micro. "Olha! Agora já são 19 mil citações". No papel de parede do monitor, uma foto dela ao lado do secretário-geral da ONU, Kofi Annan. "Ah, isso foi numa discussão sobre Aids em Nova York". Gabriela viaja o mundo representando o movimento. "As prostitutas da Tailândia são as mais bonitas."



Paulistana da Vila Mariana, "aposentada sem aposentadoria" aos 53 anos, Gabriela é a principal líder da ONG. Fez o primeiro programa com pouco mais de 20 anos e diz que abandonou o curso de Ciências Sociais na USP para se tornar prostituta. "Eu era muito tímida e quis fazer minha revolução pessoal", diz. "As pessoas acham que a vida da prostituta é sofrida, mas é uma profissão como outra qualquer. Os clientes são ótimos. A parte ruim é o preconceito."



No Brasil, a ONG tem patrocínios diversos, que vão do Ministério da Saúde à igreja luterana. No Congresso Nacional, tem apoio do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que apresentou projeto de legalização da profissão. "Mas muita gente lá, como o ACMzinho, é contra".



Graças à Daspu, Gabriela e as voluntárias da ONG têm vivido dias de fama. "Depois que as meninas apareceram no "Fantástico" [da TV Globo], estão até sendo reconhecidas nas ruas." Aconteceu, por exemplo, com Jane Lúcia Eloy, 31, que foi abordada "por uma patricinha" em uma loja da C&A. "Justo na C&A, que é uma das minhas marcas preferidas", diz ela, orgulhosa. Jane é uma das "multiplicadoras" da ONG. Quando não está buscando clientes na praça Tiradentes, circula por outros pontos distribuindo preservativos e falando às garotas sobre cuidados com a saúde. Mãe de três filhos, ela começou "na vida" aos 17 anos. Fatura R$ 400 nos meses de pouco movimento, como junho -"faz frio e os homens ficam mais em casa, com a mulher"-, e até R$ 3 mil "quando Copacabana enche de turistas".



Gabriela interrompe a conversa para convocar a turma: "Vamos lá tomar um chope? "Tá" muito calor aqui". São 19h. Fecham-se as portas da ONG e o grupo anda quatro quarteirões até o bar, na avenida Glória.



Eles mal se sentam à mesa e uma jornalista, Mônica Cavalcanti, reconhece as meninas. "Vocês são da Daspu, não são? Gente, vocês são tuuudo!!!". Uma hora depois, eles voltam a ser reconhecidos, dessa vez pela secretária Mirelli Silva. "Achei tudo de bom!". Virou rotina.



A primeira coleção da Daspu será lançada em fevereiro, mas as camisetas já estão à venda pela internet (www.daspu.com.br). Entre um chope e outro, discute-se quanto custará cada peça. "Os vestidos mais caros, com crochê na parte da cima, dá pra vender por uns R$ 80, eu acho. É muito caro?", pergunta Jane, sobre o valor 500 vezes menor que os vestidos mais caros da "homenageada" Daslu.



Uma das voluntárias da ONG, Maria Nilce dos Santos, 56, que é ex-prostituta, se despede de todos: o marido a espera em casa e a novela das oito está para começar. Jane também diz "tchau": ela tem que pegar um ônibus até Copacabana. "Deixa eu ir trabalhar que o movimento vai ser bom hoje".
 
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